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Três Gerações, Uma Paixão

A avó Lurdes tinha umas mãos que faziam magia.

Era costureira e artesã de manhã costurava vestidos que faziam as mulheres da aldeia sentirem-se rainhas, à tarde bordava bolsas, almofadas e decorava a casa com as próprias mãos. Dizia sempre que uma mulher bem vestida merecia também uma casa bonita, e que as duas coisas se fazem da mesma forma: com tempo, com cuidado, e com amor. Nunca cobrou o que merecia. Nunca quis. "Faz-se por amor, não por dinheiro" era o que dizia, sempre, enquanto a agulha passava no tecido com uma leveza que parecia impossível.

A filha, a Dona Ana, cresceu a ver aquelas mãos. Aprendeu cada ponto, cada nó, cada dobra. Aprendeu a escolher tecidos, a sentir a qualidade com os dedos, a fazer peças que duravam anos. Quando a avó Lurdes faleceu, a Dona Ana guardou a caixa de madeira com as linhas, as agulhas e os botões. E dentro, dobrado com o maior cuidado, um tecido floral que a mãe nunca tinha chegado a acabar. Ficou guardado durante anos. À espera do momento certo.

A Joana cresceu a ver a mãe e a avó criar coisas belas com as mãos. Mas desde nova soube que o seu caminho era outro tinha o olho para escolher, para sentir o que fica bem numa mulher, para perceber o que a faz sentir-se ela própria quando se olha ao espelho de manhã. Aprendeu tudo o que podia sobre o que as mulheres portuguesas querem vestir. Não o que as revistas dizem que devem querer, mas o que realmente as faz sentir bem.

Foi nessa jornada que conheceu o Pedro. Ele tinha o mesmo olhar, apurado, atento, genuíno. Sabia reconhecer qualidade à primeira vista. E tinha algo que a Joana admirou desde o primeiro dia: nunca vendia o que não acreditava. Juntos, em 2021, abriram esta loja às margens do Rio Douro onde a Joana cresceu. Não foi por acaso que ficou com o nome do rio o Douro é teimoso, vai sempre em frente, não para por nada. Era assim a avó Lurdes. É assim a Dona Ana. É assim a Joana.

Mas havia ainda uma promessa por cumprir. Quando a loja abriu, a Joana olhou para a mãe e disse: "Mãe, está na hora de acabar o que a avó começou." A Dona Ana abriu a caixa de madeira pela primeira vez em anos. Pegou no tecido floral da mãe, aquele que ficara dobrado, à espera. Sentiu o tecido entre os dedos. Reconheceu os pontos. E começou.

Hoje, a Joana e o Pedro escolhem cada peça de moda desta loja a pensar numa mulher específica a que já sabe o que quer, que não precisa de seguir tendências para se sentir bem, que valoriza qualidade acima de quantidade. E a Dona Ana faz cada peça artesanal à mão, no seu pequeno atelier em casa, com os pontos que aprendeu com a mãe, com os tecidos que escolhe com o coração, com a paciência que só quem ama verdadeiramente o que faz consegue ter. Não há máquinas. Não há pressa. Cada peça demora o tempo que demorar.

Esta loja tem três pessoas por trás. Cada uma com o seu papel. Mas todas ligadas pela mesma mulher a avó Lurdes, que costurava numa sala pequena, com um rádio ligado, sem saber que estava a criar algo que duraria gerações.

Ela nunca soube o impacto que deixou. Mas nós sabemos. E é por isso que estamos aqui.

Para ela 🤍